Vou deixar de te escrever. Eventualmente. Assiduamente.
Deram-me um presente. Dos mais bonitos e certeiros de sempre. Um Moleskine.
E, com ele, um desafio.
Quem o fez, conhece-me ao ponto de não ter certeza alguma acerca da minha reacção.
Aceitei.
Sabes como sou. Não resisto a um desafio. Bom.
Numa noite de verão, sabe bem ir à descoberta: de novos sítios e de novas pessoas.
Reunir à mesa, de um bar, novo, uma garrafa de vinho partilhada, chardonnay para noites de verão, na mão, um cigarro, light, na outra, e deixar a conversa, boa, fluir.
A conversa só flui com pessoas semelhantes na sua essência. Sabias?
Há pessoas que me encantam à primeira vista. Na verdade, quando me encantam, é à primeira vista. Caso contrário, não me encantam, conquistam-me. Ou deixo-me conquistar.
Pessoas como aquelas a quem me apresentaste numa noite de verão, de sonho. Pessoas originais, que não são, nem deixam de ser, pelos outros. Pessoas genuínas, iguais a si próprias. Pessoas abertas, ao mundo e, consequentemente, à vida.
Encantei-me imediatamente pela A.. Não sei se foi a sua figura petit, o seu sorriso sincero, o seu olhar curioso, a sua voz de menina, as flores no cabelo ou as suas mãos de pluma. Sendo ela o elo de ligação entre nós e o grupo, esteve sempre atenciosa, atenta, sem o deixar transparecer e sem maçar. Pessoas com esta subtileza e com esta sensibilidade, são raras. E eu perdia constantemente o fio à conversa, completamente absorta a observá-la. Quero-a como minha amiga. Podes dizer-lhe, por favor?
Depois encantei-me com a estória de R.. Quase invejei a sua vida. Se a minha não fosse exactamente como a quero, queria a dele. E talvez, um dia, experimente a dele. Ainda não sei.
R. é destemido e aventureiro. Admiro-o! E tinha uns olhos lindos... Dos mais bonitos que vi até hoje. E olha que eu já vi muitos.
Os olhos dele são inquisidores. Principalmente quando pousam nos silêncios. Não percebi o que inquiriam, mas sei que não incomodava.
Não me quis perder neles... Por causa de M..
E quem diria que M. era minha amiga em segundo grau?
Encanta-me o mundo pequeno e o facto de estarmos todos ligados.
M., de todos a mais recatada, emburrada naquele ar blasé, que eu não suporto, ironicamente, seria a mais próxima de mim. A ela, provavelmente, mais dia, menos dia, mais mês, menos mês, mais ano, menos ano, acabaria por conhecer.
São estas noites de verão as minhas preferidas.
Regresso a casa enriquecida, viva, sem vontade que a noite acabe, incapaz de adormecer.
Da próxima vez que entrar no carro, dir-te-ei antecipadamente, tal como Vivianne, também ela de sonho: no caso de me esquecer depois, obrigada por esta noite.
Dizes coisas que só compreendo mais tarde.
Acho que a chuva me trouxe saudade.
Saudade do Inverno, saudade daqueles que partiram, saudade dos que estão longe, saudade dos que estão perto, saudade de coisas, saudade de uns abraços, saudades de algumas gargalhadas, saudade de olhares cumplices, saudade de silêncios partilhados, saudade de lágrimas incontidas... Saudade.
Saudade que nos faz viajar no tempo, ao som da chuva. Uma saudade boa.
Saudade que nos recorda tudo o que já vivemos, tudo o que nos fez feliz. Saudade que nos trouxe até aqui.
Saudade que nos faz sonhar com tudo o que ainda iremos viver, tudo o que ainda nos fará muito feliz. Saudade que nos levará... longe.
Como é que tu estás?
Fiquei a pensar, não tanto no conteúdo, mas na forma como a questão foi formulada.
Só alguém que me conhece há muito me colocaria esta questão. E mais, esperaria, de olhos postos nos meus, uma resposta.
Sorri, pela ousadia. Estou bem!
E estava. Acabava de encontrar um amigo de há quinze anos. Se há algo que me deixa bem, é encontrar pessoas de quem gosto muito.
Mas sei que aquela questão não se prendia ao meu estado de espírito naquele dado momento...
Dir-te-ia agora: Estou bem!
E estou. Mesmo.
Estás muito diferente.
Sabes? Há mutações que sofremos que parecem rasgar o corpo e dilacerar a alma. São de fundo. Mutações que nos atiram para longe de quem somos. Mas, depois, apercebemo-nos que afinal continuamos a ser.
Por exemplo, o fim da tarde continua a ser a nossa parte preferida do dia. E a luz que desaparece lentamente com o pôr-do-sol, continua a provocar o mesmo efeito em nós.
O que muda, então? Mudam os quereres... Mudarão?! Se a menina que conhecias escutava às escondidas a mesma música que escuto agora, também às escondidas. Mudarão mesmo?
O que muda, então?
Talvez mude a ordem. O que era essencial, já não o é. O que era secundário passa a ser primário. O que tinha tempo, deixou de ter. É urgente.
Gostei muito de te ver.

Alguém que vive um tempo à frente do meu, disse-me que eu vivia à frente do meu tempo.
Como faço para parar o tempo de passar por mim? Como faço para esperar? Como faço para saber que estou a tempo?
É óptimo quando o tempo nos pertence, quando os minutos e as horas se transformam em... tempo. Tempo nosso. Tempo para nós, para coisas nossas e para as nossas pessoas.
Tempo que não nos faz correr ou lutar contra ele. Tenho tempo!
Tempo que passa lentamente mas que não nos traz tédio. Traz-nos vida, vontade. Traz-nos pessoas e coisas... nossas.
Tempo que sobra, só para mais isto. E aquilo. E, já agora...
Tempo que nos liberta.
Refém do tempo, nunca! E da falta dela, jamais. Afinal, tempo é tudo o que não me falta.

Onde nos refugiamos quando este mundo não nos acolhe?
Ver as pessoas pelo que elas são e guardar o que de melhor existe nelas.
Guardo o melhor de ti: o melhor abraço do mundo.
Principalmente em dias assim, nem de chuva nem de sol, sinto a tua falta.
Serias tu, ao fim do dia, que me resgatarias deste marasmo. Bastar-me-ia chegar a casa e olhar para ti.
Serás capaz de me descobrir? Saberás ver além do que te digo? Saberás ver que sorrio quando te digo Não vou! e te viro as costas, esperando que insistas só mais um bocadinho? Saberás ver que testo a tua consistência? Saberás ver os meus actos invísiveis?
Se souberes, chamar-te-ei homem da minha vida.

Tu não sabes e chateia-me sobremaneira ter que to explicar:
Deves escutar tudo o que te digo muito atentamente. Mas deves, sobretudo, escutar ainda mais atentamente tudo aquilo que não te digo.
Não sabes?
foto de Toni Frissell
Há brincadeiras de meninos e há brincadeiras de meninas.
Eles brincam usando a sua força. Elas brincam usando a sua imaginação.
As meninas não se metem nas brincadeiras dos meninos. E os meninos não se devem meter nas brincadeiras das meninas.
Eles, quando o fazem - porque são meninos, curiosos, com mania de sabichões e, um tanto ao quanto, ingénuos - acabam por magoar as meninas.
Estas, não detendo força física suficiente para os enfrentar, usam a delas, amuando.
O que eles se esquecem é que existem meninas Maria-Rapaz. Mas nunca ouvi falar de meninos Manuel-Rapariga...

Godard, Antonioni, Truffaut... Confundiste tudo! Vsite-me pelos teus olhos...
Sou muito mais Kusturica. Côr, simplicidade, movimento, música...
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